"Marcos, o cabelo está caindo em chumaço no banho. É do Wegovy?" Eu escuto essa pergunta quase toda semana no consultório, de quem usa semaglutida (Wegovy, Ozempic) e também de quem usa tirzepatida (Mounjaro). A resposta curta é: a queda é real, é comum, e na maior parte das vezes não é o remédio agindo no cabelo, e sim o que o remédio provoca na sua alimentação. A boa notícia é que a parte alimentar dá para trabalhar.

O que os estudos e a bula dizem sobre queda de cabelo

A queda de cabelo consta na bula do Wegovy como uma reação relatada nos estudos clínicos, em uma parcela pequena dos participantes, mas mais frequente do que no grupo que recebeu placebo. O mesmo tipo de relato aparece com a tirzepatida. Isso não significa que a medicação ataca o folículo capilar. O que os pesquisadores observam é que a queda acompanha o emagrecimento rápido, e quem perde mais peso em menos tempo tende a relatar mais queda.

Por que o cabelo cai: o eflúvio telógeno

O nome técnico do que acontece é eflúvio telógeno. Cada fio do seu cabelo passa por fases: uma longa de crescimento e uma curta de repouso, ao fim da qual o fio cai para dar lugar a um novo. Quando o corpo passa por um estresse importante, e emagrecer rápido com pouca comida é um estresse, ele desloca uma quantidade grande de fios para a fase de repouso ao mesmo tempo. Dois a quatro meses depois, esses fios caem juntos. É por isso que a queda quase nunca aparece na primeira semana de caneta, e sim lá pelo terceiro ou quarto mês.

No tratamento com GLP-1, quatro fatores empurram o corpo nessa direção:

1. Velocidade da perda de peso

A caneta reduz muito o apetite. Sem orientação, é comum a pessoa passar a comer uma fração do que comia antes. O corpo entende esse déficit brusco como escassez e prioriza órgãos vitais. Cabelo e unhas ficam por último na fila.

2. Proteína de menos

O fio de cabelo é feito de queratina, uma proteína. Quando a ingestão cai, a síntese de queratina cai junto. Esse é, de longe, o fator que eu mais encontro nas avaliações: a pessoa está comendo metade da proteína que precisa, sem perceber, porque simplesmente não tem fome.

3. Ferro, zinco e outros micronutrientes

Ferro baixo, mesmo sem anemia, é uma das causas mais bem documentadas de queda difusa de cabelo, especialmente em mulheres. Zinco, vitamina D e vitaminas do complexo B também participam do ciclo do fio. Quem come pouco e, além disso, enjoa de carne vermelha (queixa frequente com GLP-1) fica em risco.

4. Sono, estresse e o próprio enjoo

Náusea, refluxo e sono ruim nos primeiros meses aumentam o estresse fisiológico e reduzem ainda mais o que a pessoa consegue comer.

Ponto-chave: queda de cabelo com GLP-1 costuma ser um aviso de que a alimentação está aquém do que o corpo precisa. Corrigir isso protege muito mais do que o cabelo: protege músculo, energia e o resultado a longo prazo.

Quando começa e quando costuma parar

O padrão mais comum que vejo é: começo da queda entre o segundo e o quarto mês de tratamento, pico por algumas semanas, e estabilização gradual quando a ingestão alimentar é corrigida e a perda de peso desacelera. Os fios novos nascem, mas crescem devagar, então a sensação de "cabelo mais fino" pode durar alguns meses mesmo depois que a queda parou. Isso varia muito de pessoa para pessoa, e eu não prometo prazo para ninguém. O que dá para fazer é tirar da frente as causas alimentares o mais cedo possível.

O que a alimentação pode fazer

O trabalho aqui não é "comer algo específico para o cabelo". É garantir que, dentro de um apetite reduzido, o que entra seja suficiente e bem escolhido:

O que não costuma funcionar

Quando procurar o médico ou o dermatologista

Nem toda queda durante o tratamento é eflúvio por alimentação. Procure avaliação médica se a queda vier com falhas redondas no couro cabeludo, coceira, descamação intensa, ou se persistir por muitos meses mesmo com a alimentação corrigida. Alterações de tireoide, deficiência importante de ferro e outras condições precisam de diagnóstico e conduta médica. No meu acompanhamento, quando os exames apontam algo fora da alçada nutricional, eu encaminho e converso com o médico que prescreveu a caneta.

Como eu trabalho isso no Método ATLAS

Quando um paciente chega com queixa de queda de cabelo, o primeiro passo é medir: quanto de proteína está entrando de verdade, como está a composição corporal e o que os exames mostram. A partir daí, monto um plano que cabe no apetite que a caneta deixou, com porções pequenas, ricas em proteína e nos nutrientes que o fio precisa, e acompanho a evolução em consultas de retorno. Atendo em Parelheiros, Interlagos, Perdizes e na Avenida Paulista, além do formato on-line. Conheça o método completo.